O acordo feito pelo estado de São Paulo e a Apas (Associação
Paulista de Supermercados) para eliminação voluntária da distribuição
gratuita de sacola plástica não degradável a partir de 3
de abril tornou os sacos plásticos a bola e o assunto da vez. Com fiéis
defensores da banição e ásperos contrários, cada um tem sua opinião
muito pessoal sobre o fim das sacolinhas.
Algumas reflexões são válidas para esclarecer o que está em jogo para
os consumidores. Em primeiro lugar, o fim das sacolas gratuitas
sinaliza e sensibiliza as pessoas para o fato de que o consumo
responsável é uma realidade. Sabemos que a cultura de uso indiscriminado
de descartáveis não é sustentável e que novos padrões de consumo são
necessários e prementes.
Em segundo lugar, há um efeito real e palpável na diminuição do lixo
plástico descartado de forma incorreta, que entope bueiros e polui
nossos preciosos recursos hídricos. Em cidades como Belo Horizonte, onde
a lei que proíbe as sacolas já vale há algum tempo, as pessoas dizem
que é perceptível a maior limpeza de ruas e avenidas. E essa limpeza tem
um impacto positivo maior do que se imagina; é um pequeno, porém
importante, passo para despoluirmos os oceanos.
Em 2011, o capitão Charles Moore, americano estudioso da situação dos oceanos, lançou o livro “Oceano Plástico”1.
O livro conta a saga do capitão, considerado o reponsável pela
descoberta do “lixão do pacífico”, um gigantesco amontoado de dejetos
plásticos espalhados em uma enorme área oceânica entre a costa americana
e o Havaí. Há mais de dez anos ele se dedica ao estudo e mensuração da
quantidade de plástico nos oceanos e dos potenciais impactos sobre os
animais e ecossistemas marinhos. Busca também entender a origem dos
plásticos descartados de forma incorreta para que seja possível propor
novas leis (nacionais e internacionais) que previnam o agravamento da
situação.
Segundo Charles Moore, praticamente todas as amostras coletadas nos
oceanos durante suas expedições de pesquisa continham quantidade
significativa de pequenas partículas plásticas provenientes da
fragmentação do lixo, que aos poucos estão se incorporando na cadeia
alimentar dos animais e outros organismos marinhos. Isso sem falar nos
detritos de maior volume como redes e equipamentos pesqueiros, garrafas,
e, claro, as famosas sacolinhas plásticas.
Para mudar essa preocupante realidade, temos de começar de algum
lugar, certo? E no caso específico das sacolas, estamos falando de uma
mudança que não implica em grandes sacrifícios. Cabe a cada um de nós
pesar a perda de um pouco da nossa comodidade frente aos ganhos
coletivos para a melhoria da qualidade ambiental de um planeta sufocado.
Repito aqui a pergunta feita por André Trigueiro2 em seu artigo sobre o uso indiscriminado dos sacos plásticos no Brasil: “Há muitos interesses em jogo. Qual é o seu?”
1 Plastic Ocean – How a sea captain’s chance discovery launched a determined quest to save the oceans
2 Mundo Sustentável 2, “A farra dos sacos plásticos”
*Letycia Janot (letyciajanot@iterconsultoria.com.br) e Maria Fernanda Franco(mffranco@iterconsultoria.com.br) são consultoras em sustentabilidade, sócias da Iter Consultoria (www.iterconsultoria.com.br) e
fundadoras da ONG Igtiba, que promove o consumo responsável tendo como
principal projeto a iniciativa Água na Jarra (www.aguanajarra.com.br).
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