Esqueça o aquecimento global e pense na sua casa
Em dezembro passado, aconteceu a COP17, encontro anual que reúne
as nações signatárias da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU. O
objetivo mais importante é costurar um acordo global que evite o aumento
sem controle das emissões atmosféricas dos gases que provocam o efeito
estufa, o tão temido aquecimento global.
Se você é uma das pessoas para quem as discussões internacionais
tornaram-se muito complexas e o tópico um tanto quanto abstrato e
distante, segue um conselho: esqueça o aquecimento global.
Temos problemas ambientais muito sérios acontecendo ao nosso lado agora
mesmo que merecem nossa atenção e exigem envolvimento e comprometimento
para serem resolvidos. E, ajudando a resolvê-los, estaremos também
dando nossa contribuição para que o problema do aquecimento global não seja agravado.
Para quem mora nas grandes e médias cidades brasileiras a lista dos
problemas urgentes é longa. Se você mora em São Paulo, por exemplo,
saiba que todo o lixo gerado em sua casa é exportado. Não existem mais
aterros públicos em funcionamento na cidade e, por isso, a atividade de
coleta e disposição dos resíduos em aterros sanitários particulares
torna-se cada vez mais cara e mais poluente. São 17 mil toneladas de
lixo que “viajam” para aterros localizados em cidades vizinhas todos os
dias. E nós pagamos por isso, seja como contribuintes, seja como
cidadãos que respiram um ar cada vez mais poluído.
Estima-se que a baixa qualidade do ar seja responsável direta por
cerca de 7.000 mortes por ano somente na cidade de São Paulo. E o ar
poluído também se relaciona com outro problema urgente, que é a questão
da mobilidade urbana. Enquanto a frota de carros continua aumentando na
maioria das cidades brasileiras, cresce o caos e a dificuldade em
encontrar soluções para o trânsito. As alternativas viáveis para desatar
esse nó passam pelo investimento em transporte público de boa
qualidade, dando-se prioridade àqueles com baixo nível de emissões
atmosféricas e o incentivo ao uso de meios de transporte alternativos
não poluentes, como as bicicletas.
Não temos como influenciar diretamente os líderes mundiais para que
eles possam finalmente chegar a um acordo global que assegure a
diminuição das emissões de gases de efeito estufa. Mas o que precisa ser
resolvido em escala global nada mais é do que a soma das soluções
locais.
Como cidadãos, podemos nos mover e adotar novas atitudes, seja
repensando nossa forma de consumo e maneiras para reduzir e reciclar
nosso lixo, seja adotando ou apoiando os meios de transporte menos
poluentes. E, mesmo sem pensar no aquecimento global, estaremos contribuindo diretamente para evitar dois dos seus maiores causadores.
*Letycia Janot (letyciajanot@iterconsultoria.com.br) e Maria Fernanda Franco(mffranco@iterconsultoria.com.br) são consultoras em sustentabilidade, sócias da Iter Consultoria (www.iterconsultoria.com.br) e
fundadoras da ONG Igtiba, que promove o consumo responsável tendo como
principal projeto a iniciativa Água na Jarra (www.aguanajarra.com.br).
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